Química Geral — Ligações Iônicas

Da transferência de elétrons à estabilidade do cristal


1 — Motivação

"Por que o NaCl existe? Sódio metálico explode em água e cloro é um gás venenoso — mas juntos formam um sólido estável e comestível."

  • A reação Na(s) + ½Cl₂(g) → NaCl(s) libera 411 kJ/mol — de onde vem essa energia?
  • A resposta está na energia de rede: a enorme estabilização eletrostática quando íons opostos se organizam num cristal periódico.
  • Entender essa energia permite prever pontos de fusão, solubilidade e reatividade de compostos iônicos.

A ligação iônica não é apenas "transferência de elétrons": é a organização coletiva de milhões de pares de íons numa estrutura que é muito mais estável do que a soma das partes.


2 — Formação de Íons

A ligação iônica forma-se entre elementos com grande diferença de eletronegatividade ($\Delta\chi > 1{,}7$): tipicamente metais (baixa EN) e não-metais (alta EN).

Transferência de elétrons:

Na  →  Na⁺  +  e⁻        ΔH = +496 kJ/mol   (EI₁)
Cl  +  e⁻  →  Cl⁻        ΔH = −349 kJ/mol   (−AE)
──────────────────────────────────────────────
Na + Cl → Na⁺ + Cl⁻      ΔH ≈ +147 kJ/mol   (processo gasoso)

Atenção: no estado gasoso, a formação do par iônico já é endotérmica. O que estabiliza o composto é a energia de rede — a atração coletiva no cristal.

Configurações eletrônicas após a transferência:

EspécieConfiguraçãoIsoeletrônico com
Na⁺[He] 2s² 2p⁶Ne
Cl⁻[Ne] 3s² 3p⁶Ar
Mg²⁺[He] 2s² 2p⁶Ne
O²⁻[He] 2s² 2p⁶Ne

Íons isoeletrônicos com gases nobres possuem octeto completo e configuração especialmente estável.


3 — Energia de Rede

A energia de rede $U$ (ou $\Delta H_{\text{rede}}$) é a energia liberada quando íons gasosos separados se unem para formar 1 mol de sólido cristalino:

\[\text{Na}^+(g) + \text{Cl}^-(g) \longrightarrow \text{NaCl}(s) \qquad \Delta H = U < 0\]

É uma quantidade sempre negativa (exotérmica) e de grande magnitude — tipicamente centenas de kJ/mol.

3.1 — Energia de um par iônico isolado

Para dois íons de cargas $z_+$ e $z_-$ separados por distância $r$:

\[E_{\text{Coulomb}} = -\frac{e^2}{4\pi\varepsilon_0} \cdot \frac{|z_+||z_-|}{r}\]

Para NaCl: $z_+ = z_- = 1$, $r = 281$ pm → $E \approx -5{,}1$ eV $\approx -495$ kJ/mol por par.

3.2 — Constante de Madelung e a série unidimensional

No cristal, cada íon interage com todos os outros — não apenas com seu vizinho mais próximo. Essa soma infinita converge para um valor chamado constante de Madelung $A$.

Exemplo: cadeia linear 1D (cristal de "sal" unidimensional)

Imagine íons alternando cargas $+e$ e $-e$ ao longo de uma linha, espaçados de $d$:

   ···  +   −   +   −   +   −   +  ···
        ←d→ ←d→ ←d→ ←d→ ←d→

Escolha um íon de referência $+$ na origem. Suas interações são:

VizinhosDistânciaCargaNº de vizinhosContribuição
1ª esfera$d$$-$2$+2/d$
2ª esfera$2d$$+$2$-2/(2d)$
3ª esfera$3d$$-$2$+2/(3d)$
$n$-ésima$nd$alternada2$\pm 2/(nd)$

A energia de Coulomb por par é:

\[E_{1D} = -\frac{e^2}{4\pi\varepsilon_0\, d}\underbrace{\left(2 - \frac{2}{2} + \frac{2}{3} - \frac{2}{4} + \cdots\right)}_{= A_{1D}}\]

O somatório é reconhecido como:

\[A_{1D} = 2\left(1 - \frac{1}{2} + \frac{1}{3} - \frac{1}{4} + \cdots\right) = 2\ln 2\]

A série alternada $\displaystyle\sum_{n=1}^{\infty}\frac{(-1)^{n+1}}{n} = \ln 2$ converge pelo critério de Leibniz (termos positivos, decrescentes, $\to 0$).

Portanto:

\[\boxed{A_{1D} = 2\ln 2 \approx 1{,}386}\]

Convergência da série — parciais:

$N$ termos$S_N$$A = 2 S_N$
11,0002,000
20,5001,000
40,5831,167
100,6461,292
1000,6881,376
10000,6931,386
$\infty$$\ln 2 = 0{,}6931\ldots$$2\ln 2 = 1{,}3863\ldots$

A série converge lentamente — mas converge. Isso ilustra por que o cálculo da energia de rede de cristais reais exige técnicas especiais (somas de Ewald).

3.3 — Constantes de Madelung em 3D

Para cristais reais tridimensionais, o mesmo princípio se aplica mas a geometria é mais complexa:

EstruturaExemplo$A$
NaCl (cúbica de face centradas)NaCl, KBr, MgO1,7476
CsCl (cúbica de corpo centrado)CsCl1,7627
Blenda de zincoZnS1,6381
FluoritaCaF₂2,5194
RutilTiO₂2,4080

A estrutura NaCl tem $A = 1{,}748$, próximo ao valor 1D de 1,386 — mas a maior coordenação em 3D aumenta a estabilização.


4 — Equação de Born-Landé

A energia de rede completa inclui não apenas a atração de Coulomb, mas também a repulsão de curto alcance (repulsão de Pauli entre as nuvens eletrônicas):

\[\boxed{U = -\frac{N_A A |z_+||z_-| e^2}{4\pi\varepsilon_0 r_0}\left(1 - \frac{1}{n}\right)}\]

onde:

  • \[N_A\]

    = número de Avogadro
  • \[A\]

    = constante de Madelung (depende da estrutura)
  • \[|z_+|, |z_-|\]

    = módulos das cargas iônicas
  • \[r_0\]

    = distância de equilíbrio cátion–ânion
  • \[n\]

    = expoente de Born (repulsão; tipicamente 5–12, depende da configuração eletrônica)

Expoentes de Born típicos:

Configuração eletrônica do íon$n$
He ($1s^2$)5
Ne ($2s^2 2p^6$)7
Ar ($3s^2 3p^6$)9
Kr ($4s^2 4p^6$)10
Xe ($5s^2 5p^6$)12

Exemplo — NaCl:

  • \[A = 1{,}748\]

    ; $r_0 = 281$ pm; $n = 8$ (média Na⁺/Cl⁻)
  • \[U(\text{NaCl}) \approx -755\]

    kJ/mol (experimental: $-787$ kJ/mol)

Tendências de $U$:

FatorEfeito em $U$Exemplo
Cargas maiores ($z$)$U$ aumenta ($U \propto z^2$)MgO ($-3795$) $\gg$ NaCl ($-787$) kJ/mol
Distância menor ($r_0$)$U$ aumenta ($U \propto 1/r_0$)LiF ($-1037$) $>$ LiI ($-761$) kJ/mol
Estrutura ($A$)Pequena variaçãoDepende da geometria

5 — Ciclo de Born-Haber

O ciclo de Born-Haber é uma aplicação da Lei de Hess que relaciona a energia de rede com quantidades mensuráveis:

\[\underbrace{\Delta H_f^\circ}_{\text{formação}} = \underbrace{\Delta H_{\text{sub}}}_{\text{sublimação}} + \underbrace{\frac{1}{2}D}_{\text{dissociação}} + \underbrace{\text{EI}_1}_{\text{ionização}} + \underbrace{(-\text{AE})}_{\text{af. eletr.}} + \underbrace{U}_{\text{rede}}\]

Ciclo completo para NaCl:

Na(s) + ½Cl₂(g) ──────────────────────────────→ NaCl(s)
                                            ΔHf° = −411 kJ/mol

    ↓ ΔHsub = +108        ↓ ½D(Cl₂) = +121
Na(g)              Cl(g)
    ↓ EI₁ = +496          ↓ −AE = −349
Na⁺(g)           Cl⁻(g)
         ↘              ↙
          Na⁺(g) + Cl⁻(g)
                ↓ U = ?
             NaCl(s)

\[U = \Delta H_f^\circ - \Delta H_{\text{sub}} - \frac{1}{2}D - \text{EI}_1 + \text{AE}\]

\[U = -411 - 108 - 121 - 496 + 349 = -787 \text{ kJ/mol}\]

Ciclo para MgO (comparação):

Etapa$\Delta H$ (kJ/mol)
Sublimação de Mg+148
Dissociação ½ O₂+249
EI₁(Mg)+738
EI₂(Mg)+1451
−AE₁(O)−141
AE₂(O) — endotérmica!+744
Energia de rede $U$−3795
$\Delta H_f^\circ$(MgO)−601

Paradoxo do O²⁻: a segunda afinidade eletrônica do oxigênio é positiva (+744 kJ/mol) — adicionar um segundo elétron ao O⁻ já carregado é endotérmico. O MgO só existe porque a enorme energia de rede (−3795 kJ/mol) supera todas essas etapas endotérmicas.


6 — Propriedades dos Compostos Iônicos

PropriedadeExplicação
Alto ponto de fusãoEnergia de rede grande; rompem-se muitas ligações iônicas
FragilidadeDeslocamento de planos alinha cargas iguais → repulsão → fratura
Condutividade elétricaSólido: não conduz (íons fixos). Fundido ou solução: conduz (íons móveis)
Solubilidade em águaÁgua polar estabiliza íons por hidratação ($\Delta H_{\text{hid}}$)
DurezaFortes atrações eletrostáticas resistem à deformação

Solubilidade — competição energética:

\[\Delta H_{\text{dissolução}} = U_{\text{rede}} + \Delta H_{\text{hidratação}}\]

  • Se $|\Delta H_{\text{hid}}| > |U|$ → dissolução exotérmica (ex.: NaOH)
  • Se $|\Delta H_{\text{hid}}| < |U|$ → dissolução endotérmica (ex.: NH₄NO₃, KNO₃)
  • Em ambos os casos pode haver dissolução espontânea, pois a entropia ($\Delta S > 0$) favorece a mistura.

7 — Estruturas Cristalinas Iônicas

A estrutura adotada depende da razão de raios $r_+/r_-$:

$r_+/r_-$CoordenaçãoEstruturaExemplo
0,155–0,2253 (triplanar)
0,225–0,4144 (tetraédrica)blenda de zincoZnS
0,414–0,7326 (octaédrica)NaClNaCl, MgO, KF
0,732–1,0008 (cúbica)CsClCsCl

Estrutura NaCl:

   Cl⁻  Na⁺  Cl⁻
   Na⁺  Cl⁻  Na⁺     ← cada Na⁺ rodeado por 6 Cl⁻
   Cl⁻  Na⁺  Cl⁻     ← cada Cl⁻ rodeado por 6 Na⁺
                          (coordenação 6:6)

Estrutura CsCl:

  • Cs⁺ maior → $r_+/r_- = 174/181 = 0{,}96$ → coordenação 8
  • Cada Cs⁺ rodeado por 8 Cl⁻ nos vértices do cubo

8 — Comparação: Iônica vs. Covalente vs. Metálica

PropriedadeIônicaCovalenteMetálica
PartículasÍonsÁtomosCátions + e⁻ livres
ForçaEletrostática (Coulomb)Compartilhamento e⁻Mar de elétrons
Ponto de fusãoAlto (600–3000°C)VariávelVariável
CondutividadeSomente fundido/soluçãoNão (exceção: grafite)Alta
ExemploNaCl, MgOH₂O, CO₂Fe, Cu

9 — Mapa Conceitual da Aula

         DIFERENÇA DE ELETRONEGATIVIDADE (Δχ > 1,7)
                          │
                   TRANSFERÊNCIA DE e⁻
                    ┌─────┴─────┐
                 CÁTION        ÂNION
                    └─────┬─────┘
                    CRISTAL IÔNICO
                          │
              ┌───────────┼───────────┐
              │           │           │
         ENERGIA      ESTRUTURA   CICLO DE
         DE REDE      CRISTALINA  BORN-HABER
         (Born-Landé) (razão r+/r-)     │
              │                    GRANDEZAS
              │                   MENSURÁVEIS
              │                  (EI, AE, ΔHf°)
              ▼
        PROPRIEDADES
    (pf alto, frágil, condutor
     no estado fundido, solúvel)

10 — Resumo e Conexões

ConceitoDefiniçãoDependência
Energia de rede $U$Energia ao formar o cristal a partir de íons gasosos\propto
Constante de Madelung $A$Soma geométrica das interações no cristalEstrutura cristalina
Equação de Born-LandéFórmula para $U$ incluindo repulsão$A$, $z$, $r_0$, $n$
Ciclo de Born-HaberLei de Hess aplicada à formação de sólidos iônicosEI, AE, $\Delta H_{\text{sub}}$, $D$
Razão de raiosDetermina a estrutura (coordenação)$r_+/r_-$

11 — Exercícios Propostos

1. O NaCl e o MgO possuem a mesma estrutura cristalina (tipo NaCl), mas energias de rede muito diferentes.

  • (a) Usando a equação de Born-Landé, explique qualitativamente por que $|U(\text{MgO})| \gg |U(\text{NaCl})|$. Quais parâmetros diferem?
  • (b) O ponto de fusão do MgO (~2852°C) é muito maior que o do NaCl (~801°C). Justifique essa diferença com base na energia de rede.

2. Considere a cadeia linear unidimensional de íons alternados $+e$ e $-e$ com espaçamento $d$.

  • (a) Mostre que a energia eletrostática por par iônico é proporcional à série $1 - \frac{1}{2} + \frac{1}{3} - \frac{1}{4} + \cdots$
  • (b) Usando o critério de Leibniz, demonstre que essa série converge.
  • (c) Calcule $A_{1D} = 2\ln 2$ e compare com a constante de Madelung do NaCl 3D ($A = 1{,}748$). Por que a constante 3D é maior?

3. Usando o ciclo de Born-Haber para o KCl e os dados abaixo, calcule a energia de rede $U$.

GrandezaValor (kJ/mol)
$\Delta H_f^\circ$(KCl, s)−437
$\Delta H_{\text{sub}}$(K)+89
$D(\text{Cl}_2)/2$+121
EI₁(K)+419
AE(Cl)+349

4. Determine a estrutura cristalina esperada (NaCl ou CsCl) para cada composto a partir da razão de raios $r_+/r_-$:

Composto$r_+$ (pm)$r_-$ (pm)
KF138133
CsI174220
MgO72140

5. A segunda afinidade eletrônica do oxigênio (O⁻ + e⁻ → O²⁻) é positiva (+744 kJ/mol).

  • (a) O que esse valor positivo significa em termos energéticos?
  • (b) Por que o íon O²⁻ existe em compostos como MgO e CaO, se sua formação é endotérmica no estado gasoso?
  • (c) Usando o conceito de energia de rede, explique o que estabiliza o O²⁻ no sólido.

12 — Gabarito dos Exercícios

1.

  • (a) A equação de Born-Landé diz $|U| \propto |z_+||z_-|/r_0$. No MgO: $z_+ = 2$, $z_- = 2$ → produto $|z_+||z_-| = 4$; no NaCl: produto = 1. Além disso, $r_0(\text{MgO}) = 211$ pm $< r_0(\text{NaCl}) = 281$ pm. Ambos os efeitos aumentam $|U(\text{MgO})|$.
  • (b) Ponto de fusão alto reflete a grande energia necessária para romper a rede iônica. Como $|U(\text{MgO})| \approx 4{,}8 \times |U(\text{NaCl})|$, o MgO requer muito mais energia térmica para fundir.

2.

  • (a) Íon de referência na origem. Vizinhos a distância $nd$ ($n = 1, 2, 3, \ldots$), com carga $(-1)^{n+1} e$, dois em cada lado: energia $= -\frac{e^2}{4\pi\varepsilon_0 d}\cdot 2\sum_{n=1}^\infty \frac{(-1)^{n+1}}{n}$.
  • (b) Critério de Leibniz: a série $\sum(-1)^{n+1}/n$ tem termos que (i) alternam de sinal, (ii) decrescem em módulo ($1/n \to 0$). Logo converge.
  • (c) $A_{1D} = 2\ln 2 \approx 1{,}386 < 1{,}748$ (3D). Em 3D há mais vizinhos próximos de carga oposta (coordenação 6 vs. 2 na cadeia 1D), aumentando a soma e a estabilização.

3. $U = \Delta H_f^\circ - \Delta H_{\text{sub}} - \frac{1}{2}D - \text{EI}_1 + \text{AE}$ $U = -437 - 89 - 121 - 419 + 349 = \mathbf{-717 \text{ kJ/mol}}$

4.

  • KF: $r_+/r_- = 138/133 = 1{,}04$ → coordenação 8 → estrutura CsCl (inesperado — na prática KF adota NaCl por outros fatores, mas a razão de raios prevê CsCl).
  • CsI: $r_+/r_- = 174/220 = 0{,}79$ → coordenação 8 → estrutura CsCl.
  • MgO: $r_+/r_- = 72/140 = 0{,}51$ → coordenação 6 → estrutura NaCl. ✓

5.

  • (a) A formação do O²⁻ a partir de O⁻ gasoso é endotérmica: é necessário fornecer energia para adicionar um segundo elétron a um íon já negativo (repulsão elétron-elétron).
  • (b) O O²⁻ isolado no gás não é estável, mas no cristal é estabilizado pelo campo eletrostático dos cátions vizinhos.
  • (c) A energia de rede do MgO ($U \approx -3795$ kJ/mol) é tão grande (cargas $2+$ e $2-$, distância pequena) que supera todas as etapas endotérmicas — incluindo as duas EI do Mg e a segunda AE do O — tornando a formação do composto global mente exotérmica ($\Delta H_f^\circ = -601$ kJ/mol).

Fim da aula — QG101 | Química Geral


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